Antônio morava em uma casa pequena, numa cidade pequena de um país pequeno. Era um povo muito pequeno, o daquela cidade, e Antônio era o menor de todos. Ele tinha doze anos, pele negra e olhos escuros. Seus cabelos, crespos e negros, eram altos, como se tivessem sido modelados por um tubo de plástico da largura de sua cabeça. Aliás, todos daquela casa, daquela cidade e daquele país eram assim: negros e de cabelo crespo.

Sua cidade, chamada Catabum, era tão pequena que se resumia apenas a uma rua extensa com uma fileira de casas do lado direito e outra fileira do lado esquerdo.  A casa de Antônio, assim como todas as outras daquela cidade, era uma meia esfera: uma estrutura que mais parecia um caroço, feita de madeira e barro, com uma porta de portal arredondado para a rua de terra batida e outra, igualzinha à da rua, para um imenso quintal de chão rachado e árvores secas, duas janelas redondas dos lados, que ajudavam na interação com os vizinhos, e um buraco no meio do teto, por onde entrava a luz do dia e saía a fumaça da pequena fogueira que era acesa em todas as noites frias, como aquela.

Aquela noite parecia a mais fria de todas, e isso não dava a Antônio uma intuição muito boa. Ele não conseguira dormir, principalmente depois que a fogueira apagara sozinha com um vento de gelar a espinha que entrou pelas duas portas. Aquilo era o mais estranho. Geralmente ─ normalmente, na verdade ─ o vento só sopra para uma direção.

Estava deitado entre os pais, Paula e Caio. Os três dormiam sobre um colchão de espuma estirado no chão, cobertos pelo mesmo manto aveludado e quentinho, mas que, naquela noite, já não surtia mais o familiar efeito.

O ronco de Caio cessou. A respiração leve de Paula parou. Por um momento, Antônio sentou-se no colchão, que parecia sofrer a pressão apenas do garoto. Olhou para o pai. Olhou para a mãe. Nem aos grilois mais ele ouvia. Por mais um breve momento, o menino achou que seus pais tivessem acordado e estavam observando-o olhar, ainda sentado, para o buraco no teto que mostrava o céu estrelado. Mas não estavam. Eles dormiam, ainda calados demais. O frio parecia cortar a carne. Antônio tremia como se tivesse mergulhado em um lago congelado. Sentia a própria alma congelar, o próprio sangue parar de correr. Desmaiou.

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