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Eu sinto saudade de tanta coisa que nem saberia por onde começar a contar, se quisesse contar. Mas opto, agora, por conceituar tal sentimento para que fiquem claros todos os motivos que levam a nós, seres humanos, sentirmos a falta de algo ou alguém em nossas vidas.

Porque saudade significa que algo faz falta, sim. E, se algo faz falta, é porque já passou pela sua vida. Mas algo também pode fazer falta sem ter passado por minha aqui? Pode, sim, só que isso tem outro nome: necessidade — ou o simples ato de desejar, depende muito do que se realmente precisa ou não.

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Necessidade é quando você acha que ainda falta algo para que tudo seja perfeito. Quando você acredita que poderiam haver mais palavras no seu texto ou mais sal no arroz. Quando você acredita que poderia ter um aumento no seu salário e que isso poderia te ajudar a comprar aquela peça de roupa ou fazer aquela viagem ou fazer um curso que quer tanto. Mas saudade se refere a algo do passado.

Pareça rude o quão deva parecer, mas, para mim, saudade é algo que uma pessoa que já enxergou sente todos os dias pela sua visão. Saudade é algo que alguém que não anda mais sente todos os dias de poder correr de novo. Saudade é algo que viúvas e viúvos muito apaixonadas/os sentem, todos os dias, de alguém com quem acordar e dar aquele “bom dia” apaixonado.

A saudade é um sofrimento que, por mais amenizado que seja, nunca é passageiro. É permanente. Mesmo que seja suprida de alguma maneira, sempre haverá aquele resquício, aquele pequeno foco que, por menor que seja, poderá causar um incêndio devastador. E nada como o fogo para trazer ainda mais dor a um coração.

Antes de desejar algo, deve-se pensar se aquilo lhe trará tanta saudade no futuro. Isso vale para as pessoas. Antes de assumir um relacionamento — seja ele como for; amizade, romance etc. —, pergunte-se: quanta saudade eu posso sentir dessa pessoa? E está aqui o X da questão.

Você vai pensar, e pensar muito, se a resposta for quase incalculável. Mas você vai conseguir calcular. E vai chegar à conclusão de que não sofreria muito ou quase nada por uma pessoa. Se esse for o seu resultado, você escolheu a pessoa errada.

Só se sente falta do que passou e foi bom, e mesmo que para ser bom tenha-se enfrentado uma série de acontecimentos abstratos a algo bom, você vai sentir falta. Você vai se perguntar, todos os dias, por que você e aquela pessoa não deram certo, por que tudo o que vocês fizeram juntos foi por água abaixo, por que não existe mais o mesmo sentimento entre os dois. Mas, eu posso garantir, os dois sentem saudade um do outro.

Só existe UM sentimento capaz de aplacar qualquer outro: orgulho. Se você não manifesta o que sente por conta deste sentimento, parabéns, você se auto-reprime – e esta congratulação não passa de ironia. E a única coisa que pode ser capaz de acabar com o orgulho, com a repressão, com os desgostos e aflições causados pela falta que alguém faz, é a sinceridade.

Falar a verdade não é dar uma flechada no próprio peito, mas arrancar a flecha e atirá-la no peito da outra pessoa. Muitas vezes essa flechada pode nem doer, mas ela causará um efeito — seja ele dor, espanto, raiva ou, até mesmo alegria. Para você será um alívio. Declarar saudade não é crime; crime é senti-la e não deixar-se tomar, manter-se firme demais, porque, firme assim, você pode cair e se despedaçar. E eu garanto que isso pode doer muito mais que uma saraivada de verdades.

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